domingo, março 22, 2009

A Palavra

A palavra e' o maior poder que possuimos.
Com ela podemos alegrar, humilhar, envaidecer, amar e odiar ... podemos construir e destruir... fazer nascer e matar. A palavra e' tudo.
Nenhum animal e' capaz, nao so de falar, mas de usar a palavra escrita. A palavra e' um presente de Deus. Alias, Deus e' a palavra como diz na biblia ( Joao 1:1 e2). E' tambem a nossa essencia como ser humano.

Quando vim para os EUA, nao sabia falar ingles. Nadinha ( a nao ser hi ,bye, yes e no). No colegio de ensino medio ( segundo grau, no meu tempo) que frequentava, eu tinha aulas de frances. Sai de la faltando apenas um ano para terminar o curso de tecnico em enfermagem. Foi quando soube que tinha recebido o "Green Card". Nao fiquei nada feliz. Os cinco anos de espera foram tao longos para a minha cabeca de adolescente que achava que simplesmente nao sairia do Brasil nunca. Por isso nunca me dei ao trabalho de aprender ingles. Ja estava noiva (contra a vontade dos meus pais), tinha meus amigos...estava feliz, na medida do possivel. Quando vim para os EUA, foi um choque. A inabilidade de expressar seus pensamentos e' o equivalente a uma prisao. Apesar de ser divertido no inicio (todos falando e eu nao tendo a minima ideia do assunto da conversa). Depois, fica chato. Fazer gestos para tentar ser entendido cansa. E ai fica monotono. A pessoa, sem poder se expressar torna-se invisivel. Eu queria desesperadamente voltar para o Brasil onde todos me entendiam e onde era feliz. Sai da escola, onde nao consegui me enturmar ( o fato de estar gravida nao ajudou).Vivia em casa, me sentindo miseravel e deprimida. Tudo era confuso. Perdi a minha identidade, meu senso de EU.
O tempo passou e me acomodei. Entre voltar ao Brasil e ficar nos EUA, nao decidi nada. Alguns meses depois consegui um emprego em uma escola de idiomas como professora de Portugues. Era divertido ensinar executivos americanos a falar Portugues. Era gratificante ver outra pessoa se identificando com os meus problemas de comunicacao. No metodo da escola Berlitz, professores e alunos sao proibidos de falar qualquer idioma diferente do que o idioma que esta sendo ensinado. Para mim, nao havia necessidade nenhuma para que falasse ingles, mas com o tempo isso passou a me incomodar. E se resolvesse ficar ? Como poderia viver em um pais sem falar seu idioma ? Sim sei que muitas pessoas o fazem.E se qualquer um quiser passar a vida inteira nos EUA sem falar uma palavra de ingles, pode faze-lo tranquilamente porque ha tradutores pagos pelo governo (na verdade pelos cidadaos, pagadores de impostos) que fazem o trabalho sem qualquer custo para o estrangeiro. Mas ai decidi ficar. Apaixonei-me pelas pessoas, tao simpaticas e prestativas que me ajudavam, me aceitavam, independentemente de me conhecer. Quando decidi ficar aqui, decidi tambem que eu teria tambem a obrigacao de falar o idioma da minha nova patria. Acho que quando alguem nao fala o idioma do pais em que mora, nao e' tratado como um cidadao daquele pais (e' claro. Qual cidadao nao sabe falar seu propio idioma ?) Se eu fosse morar e criar meus filhos nesse pais, eu nao gostaria de ser tratada como uma estrangeira. Queria ser tratada como uma pessoa comum: nem melhor, nem pior. Tambem bateu um pouco de orgulho: queria ser completamente independente de qualquer ajuda do governo ou de amigos, por melhor intencionados que fossem.
Quando tomei a decisao de aprender a falar ingles, procurei a melhor maneira de aprender o idioma. Neste ponto da minha vida, ja tinha um filho recem-nascido e um trabalho. Nao tinha tempo para frequentar a escola (cursos de ingles sao oferecidos de graca aqui). Entao descobri que programas de TV seriam a solucao. Sesame Street (Vila Sesamo), foi otimo ! Aprendi o basico como o alfabeto, numeros e palavras do dia-a-dia neste programa. Comecei a completar livrinhos escolares de nivel basico. Com um dicionario ingles/portugues ao meu lado,tentava ler revistas de moda e romances.
Um dia, no centro da cidade caminhando para o ponto de onibus depois de um dia de trabalho, uma senhora me parou na calcada. Ela estava procurando um endereco e me perguntou se sabia onde ficava a rua. Imediatamente lhe respondi, dando instrucoes de como chegar ao endereco. Ela agradeceu e se foi. Por alguns segundos, fiquei ali, paralisada: O que aconteceu ? Eu realmente escutei e respondi em ingles ? A mulher me entendeu ? Nao podia acreditar...EU ESTAVA FALANDO INGLES !!! Que alegria !
Descobri que nao da pra traduzir o idioma na cabeca. Para falar ingles e necessario pensar em ingles. Isso acontece naturalmente. O nosso cerebro e' uma maquina extraordinaria...
Alguns anos depois fiz uma prova para entrar na faculdade( o equivalente ao vestibular) e passei. La dentro me apaixonei pela palavra escrita. Peguei quase todos as aulas de ingles disponiveis : de literatura a poesia e -licenca pra me gabar- passei em todas com A+.

E claro, sou consciente do meu sotaque brasileiro. Mas acho (e me falam) que isso e' um beneficio. Alem de charmoso (he, he) e causar curiosidade das pessoas que me escutam falar(de onde voce e' ? me perguntam sempre), e' tambem prova da minha dupla nacionalidade.
Tambem acredito ser uma demonstracao da minha capacidade de adaptacao, da habilidade da minha mente de transmitir o que penso de uma maneira diferente. E' o resultado da vontade de ser livre, porque saber expressar-se e' liberdade. E' tambem a habilidade de demonstrar atraves de palavras, a pessoa que sou.

Um comentário:

Lenita disse...

Ah, o poder das palavras...
Elas podem salvar, mas também podem machucar, muito, muito.
E se é verdade que as palavras dizem muito de nós, devemos tomar cuidado com o que e para quem falamos.
Seja em que idioma for.
Bjs